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A GRANDE LIÇÃO DO SER E DO ESTAR

Nestes últimos anos dezenas de executivos, das mais diversas áreas empresariais, têm sentado a minha frente em busca de um novo emprego. A experiência de ter vivenciado e partilhado com eles momentos tão importantes leva-me a refletir sobre a validade de certos fatores que compõem o seu sistema de valores. A força do pretenso poder e a frágil valentia dadas pela temporariedade de uma elevada posição profissional um belo dia rompem-se como num passe de mágica e o castelo vem abaixo estrondosamente ao receber um simples memorando que, em geral, começa dizendo: "Agradecemos a sua preciosa colaboração nestes longos anos, mas..."Tudo aquilo que parecia tão importante e forte de repente deixa de sustentar a aparência e se mostra como realmente é: uma ilusão. A ilusão do "estar" transforma os homens desde que foi inventado o espelho social da hierarquização de classes sociais. Desde então, uma terrível confusão tem obscurecido a mente humana entre o "estar" e o "ser". O executivo tem sido um dos sofredores desse mal, pressionado pelos que vem atrás e atraídos pelos que estão à frente, pagando – por isso – um preço muito alto: a falta de dedicação à família, aos seus "hobbies", ao seu desenvolvimento, à seu corpo, à sua mente, etc., etc... Tudo isso ficou em segundo lugar cedendo espaço aos objetivos da empresa e a manutenção do seu poder pessoal. Considero que existem, pelo menos, três motivos para pensar que a perda do poder, em determinado momento da vida do executivo, é uma experiência benéfica. Volta a realidade – Ao perder o poder do cargo, o homem volta a sentir-se vulnerável. Um mortal como outro qualquer, um cidadão "normal". Como tal, recomeça a analisar o verbo ser, no particípio presente, com a humildade que nunca deveria ter perdido no passado. Passa a repensar nos seus valores originais (família, cultura, relacionamentos, etc.) e identificar-se com certas posições de rotina que de há muito eram coisas de secretária, auxiliares e demais subordinados. É incrível como o simples ato de voltar a levar os filhos ao colégio ou ajudar a esposa em tarefas de casa ou comprar pão no "seu Joaquim" consegue trazê-lo de volta à vida! Muitos executivos confessaram-me que esses atos lhes proporcionaram "retornos "tão salutares quanto esquecidos como o valor do tempo, a continuidade da vida e as pequenas grandes transformações que ocorrem a cada segundo, fora dos contornos profissionais. Auto-avaliação – Percebe-se que a ruptura repentina do vínculo empregatício liberta o executivo de uma miopia temporária sobre aspectos pessoais, permitindo-lhe, novamente, rever com clareza o seu verdadeiro potencial e o seu valor enquanto ser humano igual aos demais. Não mais do que meia dúzia de entrevistas e algumas cartas não respondidas ou com respostas gentis de "futuro aproveitando" são suficientes para despojá-la da aureola que lhe foi conferida a posição perdida. Em pouco menos de 60 dias aprende-se que o "status" do poder conferido em sua bagagem pessoal, mas ficou na mesa do chefe, juntamente com o "aviso de desligamento". É a tomada de conhecimento do que realmente lhe pertence e daquilo que tomava emprestado. Reconstrução de valores – A perda do emprego é a grande oportunidade de parar, refletir e construir um balanço no seu sistema de valores. Lamber as feridas e ajustar os rumos de acordo com as novas regras. É a autoprestação de contas, tão esquecida, entre débito e crédito com o seu próprio ego. O executivo em busca de emprego é um homem momentaneamente assustado, inseguro, perplexo e ansioso. Assustado, em geral, pelo medo da idade: passa dos 40 anos e, por isso, como ninguém, sabe da dificuldade que vai enfrentar. Afinal, ele própria era um dos que defendia a política da empresa em recrutar elementos com 30 anos de idade e 30 de experiência (!). Inseguro, por não saber como comportar-se durante uma entrevista e pelo fato de ter que, de repente, perceber-se dependente de terceiros para construir o seu própria currículo. Perplexo, por perceber que durante tantos anos pensou somente na empresa e agora vê o quanto teria que ter pensado nele também (como isso faz falta nessa hora!). Ansioso, pois o fato de passar a ser avaliado e comparado a outros profissionais o remete a um período que pensou estar soterrado para sempre pela posição que atingiu. Nesta altura, é impossível para mim deixar de comparar dois momentos: aquele do executivo impotente dentro de sua armadura invisível, brandindo ordens e impondo atitudes, e esta – pós-desligamento – de homem frágil e inseguro como todos nós. A falta de benefícios (também conhecido por mordomias), como alto salário, automóvel, férias na Europa ou polpudas gratificações, transformou o homem imediatamente. Ele passa a ver o futuro através de um abismo intransponível: a dificuldade em recuperar, rapidamente, o poder perdido. A grande lição do executivo desempregado é sentir-se preterido num processo seletivo. Não consegue entender por que não foi escolhido apesar de tantos anos de experiência e tantas decisões tomadas! É nesse momento que se percebe o quanto ainda tem de aprender sobre relacionamento, sobre comportamento e personalidade. Tudo isso era muito vago e muito superficial até o momento em que ele próprio teve de experimentar o seu gosto. A grande pergunta é: por quanto tempo poderá continuar mantendo o "seu" padrão de vida? Dois meses de desemprego geralmente são suficientes para aprender que o que era essencial no "estar" é extremamente supérfluo no "ser" e, então, repensa na prioridade. É capaz de adiar a necessidade de status por algo mais "prático"; uma consultoria?, uma "sociedade"? ou talvez um pequeno negócio em conjunto com a esposa? Apesar de tudo isso, a necessidade de poder é mais forte e a vontade de continuar é maior. É o estar impondo-se ao ser. Nestes casos, a sugestão é ir em frente, apesar do medo e da insegurança. Afinal, o saber acumulado é um bem precioso que bem poucos, infelizmente, conseguem ter e vender. O verdadeiro executivo é sempre precioso. Ele tem uma chave especial capaz de abrir uma determinada porta e tem de entender que não adianta querer forçar portas erradas. É preciso que saiba exatamente qual o tipo de porta que poderá abrir e, então, introduzir a chave com firmeza. Em média, tenho acompanhado essa "tempestade" não mais do que por 90dias. É o suficiente para tudo voltar ao que era. Novo emprego, novo poder, nova armadura invisível e tudo passa, como nuvem passageira, e é esquecido. Até a chegada de um novo memorando. Será que a lição foi aprendida?