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A ESTÓRIA QUE DESNUDOU O CHEFÃO

Era uma vez uma empresa. Nesta, como em milhares de outras iguais, aconteceram muitas estórias interessantes. Umas conhecidas por todos, outras mantidas – por diversas razões – no "arquivo confidencial" daqueles que a testemunharam. Seu então presidente, meu chefe, um alemão – economista, inteligente, alto, barriga avantajada e um porte arrogante e mandão. Nesta altura você dirá: este filme já vi, todo "manda-chuva" é assim, qual a novidade? Todos na empresa pensavam conhecer o "chefão". Pelo que viam e ouviam dele haviam formado uma imagem e esta ficou rotulada na memória de todos nós como sendo a de um homem duro, frio e distante e, apesar da sua capacidade administrativa, um egocêntrico incurável. Na verdade, ninguém foi capaz de abrir aquele enorme alemão e vê-lo por dentro. Até que um dia... Era uma Sexta-feira como outra qualquer quando, de repente o meu telefone tocou e a secretária do presidente me pediu para "subir" um instante à sala dele. O assunto? Isso eu saberia na hora. Vencidos os 43 degraus que me separavam da glória, como de costume arrumei a gravata, abotoei o paletó, respirei fundo e, carregando toda a postura de confiança que a minha bagagem ainda possuía, fiz a entrada triunfal na sala do "big boss". -Conhece este homem? – começou. -Conheço, senhor. É o homem que chamei para ocupar a vaga de guarda na empresa. Algum problema? -Muitos, ele disse. Este homem está desempregado há um ano, tem esposa e três filhos, mora numa favela e está coberto de dívidas. Como poderia trabalhar para mim, nessas condições? -Mas, senhor, tentei responder, este é um problema social típico das classes menos favorecidas. Certamente - acrescentei - a maioria dos candidatos estaria em situação parecida. Eu pouco posso fazer quanto a isso! -O senhor talvez não possa – replicou -, mas nós devemos. Enquanto eu for presidente desta companhia, não quero nenhum homem trabalhando para mim, nessas condições, fui claro? ... Eu acho que sim, mas o senhor não gostaria de reconsiderar? Sabe como é, as leis, as normas e a imag... -O diretor de RH é o senhor. Não deveria me fazer mudar de idéia. De qualquer maneira, já tomei a minha decisão. Depois dessa, recolhi minhas velas e rumei o barco, em companhia do infeliz postulante ao emprego, até minha sala. Comecei o discurso com todo cuidado, tentando explicar que o nosso presidente havia mudado o perfil do cargo e que ele, infelizmente, não se encaixava nas novas funções. Quem sabe em outra oportun... Interrompeu, com aquela candura típica de homem simples, dizendo-me: - Doutor, o que devo fazer então com o cheque? Que cheque? - disse eu atônito. -E o emprego para minha mulher? - continuou ele. -Emprego para sua mulher? -Sim, e a bolsa de estudo para meus filhos? Nessa altura eu não entendia mais nada. Respirei fundo e pedi que lhe servissem um cafezinho, enquanto eu ia novamente ao cume do apocalipse. -Senhor presidente? Eu de novo. O homem fala num cheque, num emprego de meio período para a mulher e em bolsa de estudo para os filhos. O senhor teria falado de isso acontecer caso fosse empregado? - Não. Não falei em hipótese . Eu fiz. Admiti-o, adiantando-lhe um dinheiro para que saldasse todas as suas dívidas; ofereci aquela vaga de meio período para a sua esposa para que, assim, pudesse cuidar dos filhos e cedi duas vagas na nossa escolinha. Não é nossa também essa responsabilidade? Foi uma maneira diferente, talvez não muito convencional, reconheço, de se ditar uma norma. O fato é que, desse dia em diante, um dos valores do sistema veio à tona e, sem havê-lo planejado, a organização encontrou um dos atalhos que estava procurando. Sem saber das razões, os empregados nunca mais sofreram dificuldades. A empresa passou a caminhar lado a lado com cada um dos seus funcionários e os conflitos, coincidentemente, diminuíram sensivelmente. A estória do vigia conseguiu desnudar o verdadeiro sentimento do chefão, não tão duro, não tão egoísta, não tão "distante" como parecia. Como milhares de outros chefões.