Artigos

O FUTURO DOS JOVENS EXECUTIVOS É INCERTO

Um nó na garganta, o coração palpitando a mil por hora, uma tremedeira generalizada pelo corpo todo e a vontade de sair correndo de volta à segurança do lar. Igualzinho ao que ele sentiu com a primeira namorada e na sua primeira noite de amor. A história do Zé Cláudio poderia ser a de qualquer um de nós, de tão parecida. Após quatro anos de subemprego diurno e faculdade noturna, conseguiu finalmente realizar o sonho de toda família e seu próprio: receber um titulo de grau superior. Era o passaporte para ingressar – segundo os mais experientes – num mundo privilegiado dos que vencem na vida. Durante muito tempo sonhou com este momento: via-se comprando um automóvel reluzente, acompanhado de belas garotas e contribuindo com sucesso para o desenvolvimento daquela que seria a "sua" empresa. A realidade, porém, estava lhe preparando uma surpresa. Três meses passados, e após folhear dezenas de vezes os classificados do Estadão de Domingo, Zé Cláudio começou a perceber que alguma coisa estava errada. O que seria? As dezenas de currículos que enviou nesse período foram todas confeccionados com muito cuidado e atendendo corretamente às exigências que as ofertas especificavam. Contudo, nem uma resposta. Por que o Zé Cláudio não arranjava um emprego? Era um moço bem apresentado, educado, sem vícios, com boas notas nos estudos. Tinha até bons conhecimento de inglês e de informática! A inquietação já atingia até a todos os membros da família fazendo com que o assunto se tornasse tônico à mesa dos almoços domingueiros quando, um belo dia, o carteiro trouxe à tona a esperança geral. Um chamado para comparecer à primeira entrevista! O dia "D" para o Zé Cláudio começou cedo. Vestiu finalmente o terno azul-marinho novo em folha, presente de formatura (há três meses no armário), e apresentou-se à recepcionista. Uma hora e meia depois finalmente chamaram-no à sala do entrevistador. Foi solicitado a preencher uma ficha que, mais que um pedido de emprego, parecia um boletim de ocorrência policial e. após mais duas horas de espera na recepção, finalmente, Zé Cláudio foi escoltado à sala do selecionador. Nessa altura a sua ansiedade, sua pulsação, pressão sangüínea e sistema nervoso já estavam em pandarecos. A sensação que ele tinha era de estar sendo levado ao cadafalso. Era só pânico o que ele consegui sentir. Achava que alguma coisa estava errada e que o melhor a fazer era sair correndo (igualzinho às outras primeiras experiências). A primeira estocada veio logo que o seu entrevistador questionou a sua experiência anterior: óbvio que ele não tinha! O seu currículo foi bem claro e, além do mais, o anúncio não exigia nada disso. Um frio "qualquer coisa a gente entra em contato" encerrou a entrevista muito antes que ele pudesse expor tudo aquilo que havia sonhado e pensado dizer nos seus quatro anos de preparo. Queria falar da sua motivação, de suas idéias, de suas necessidades, do quanto que esperava contribuir com uma empresa que estivesse disposta a lhe abrir a boca. Passado um ano dessa experiência e dezenas de entrevistas no mesmo tom, o Zé Cláudio de hoje já não é o mesmo. A sua visão sobre a realidade ultrapassou as raias da inocência pura do idealismo universitário e, amargurado e desiludido, tem uma outra concepção sobre o trabalho e a economia de mercado. Contesta a validade das instituições (faculdades, governo, empresa etc.) e sente-se como que traído e impotente para reagir. Confessa que aquela motivação para o trabalho, aquela vontade de realizar, de vestir a camisa da empresa e de construir uma grande obra, tudo isso foi por água abaixo juntamente com os seus sonhos. Sabe (como todo traído) que nunca se entregará para empresa nenhuma de corpo e alma, como pensava que devia ser da primeira vez, mas tratará exclusivamente de resolver o "seu problema: ter um trabalho qualquer com a melhor compensação financeira possível. Moral da história Milhares de jovens, no Brasil de hoje, trilham pela mesma picada do nosso personagem, vítimas da instabilidade econômica, política e social. O preocupante nesse cenário é saber o quanto essa realidade marca o pensamento dos nossos jovens "executivos do amanhã", alterando o seu sistema de valores com relação ao trabalho. Quanto que o País está perdendo em potencial, em energia positiva, em força ideológica e em criatividade ao deixar que as regras do jogo continuem como estão? Quanto que esta geração de rejeitados, ou excluídos, ou traídos, irá influir negativamente na formação educacional e profissional dos seus próprios filhos? Para sermos otimistas talvez possamos dizer que os efeitos negativos de toda esta falta de ação em mudarmos as regras do jogo talvez atrasem o desenvolvimento do nosso querido País por somente duas gerações ( a do Zé Cláudio e dos seus filhos). Ou seja por mais 50 anos... É isso que nós queremos? Não tenho receio em afirmar que esta história encerra uma das principais razões da falta de produtividade e de dedicação do trabalhador nas atuais organizações. Haverá razão maior do que lhe negar o direito ao trabalho? Il primo amore non si scorda mai. Nem o primeiro não.