Artigos

AS CONSEQÜÊNCIAS DA DIVISÃO DO TRABALHO

Ao explanar os pressupostos básicos que tornaram tão conhecidas as suas Teorias X e Y, Douglas McGregor afirma que "o dispêndio de esforço físico e mental no trabalho é tão natural como o jogo ou o descanso" e, por esse principio, o ser humano não detesta, por natureza, o trabalho. Ainda hoje, passado quase meio século desde o início das experiências que levaram os cientistas sociais a construir as suas teses sobre o comportamento do homem no trabalho, parece-me válido repensar esse tema, tão antigo e tão atual (afinal, todas as discussões ainda se baseiam naqueles princípios originais) questionando-lhe a validade no cenário do segundo milênio. A afirmativa de que o trabalhador encontra satisfação no seu trabalho, defendida por McGregor, na década de 1940, pode ser contestada hoje pela presença de um componente que a meu ver não foi devidamente mensurado naquele tempo: a influência da divisão do trabalho no ambiente social. O sistema capitalista emergente no pós-guerra já tinha inserido no seu contexto esse princípio. O que os estudiosos da época talvez não puderam imaginar era a forma que esse processo tomaria ao longo do tempo. Não é minha intenção analisar esse fenômeno sob a ótica marxista da "divisão capitalista do trabalho", que sustenta a necessidade de os operários perderem não somente a propriedade dos meios de produção mas também na medida do possível, o controle sobre o funcionamento desses meios, para perderem também o poder. Analiso e construo minha preocupação essencialmente sob o enfoque humanista, visando fundamentalmente estimular reflexões sobre a influência que o método divisório de tarefas está exercendo sobre os indivíduos, nos seus dois cenários: o pessoal e o profissional. Concordo com a afirmação que o trabalhador pode (e deve) encontrar no universo do seu trabalho uma fonte de satisfação e realização. Tenho de admitir, também, que divisão do trabalho foi um caminho que proporcionou a possibilidade de alavancar o processo produtivo a níveis suficientes para atender à demanda do "boom" populacional do planeta e suas respectivas necessidades. O que não posso entender é que no afã de produzir cada vez mais e melhor, tenhamos nos esquecidos de acompanhar a evolução dessa mudança, que introduzimos no ambiente de trabalho, e hoje, após todos esses anos, verificamos impotentes que entramos num beco sem saída. A cada ano que passa, o trabalhador encontra menos satisfação no âmbito do seu trabalho. E com isso nos faz pensar (erroneamente) na validade da outra teoria de McGregor (teoria X) que afirma: "O ser humano, de modo geral, tem uma aversão essencial ao trabalho e o evita sempre que possível". Se a verdade de McGregor dos anos 40 (teoria Y) foi transformada, na modernidade, pela sua antítese (teoria X), a quem cabe a responsabilidade? Certamente não ao trabalhador, mas àqueles que lhe impuseram o método de trabalho. No limite, a divisão do trabalho empobrece o homem e embota todos os seus sentidos como, por exemplo, acontece com aqueles trabalhadores em cargos cujo ciclo de produção é tão curto que, durante a jornada de trabalho, repetem milhares de vezes a mesma tarefa, tornando o trabalho aborrecido, monótono e tão "sem graça" que o operador procura dirigir a sua criatividade no sentido de descobrir – a todo momento – o que deve fazer para se ver livre dele. Vejamos o exemplo de um operário cujo trabalho é apertar os parafusos de um determinado dispositivo 400 vezes por dia. Ou de um outro, que aperta uma manivela centenas de vezes por hora para acionar a operação de uma máquina. A desmotivação e a insatisfação nesses casos são tão fortes que fazem com que o trabalhador extravase os limites de sua agressividade, do cenário da empresa para o do lar e o da sociedade como um todo. Nesse quadro, como é possível se falar em motivação, produtividade e/ou qualidade, se a única coisa que a turma faz, na hora em que há uma quebra de máquina é gritar: Oba! As causas não serão encontradas na "dureza" do trabalho, mas no fato de que o trabalhador perdeu totalmente o controle do seu trabalho e a visão daquilo que está construindo, comparando-se a uma simples ferramenta. Algumas experiências isoladas têm sido tomadas por empresas mais "sensíveis" ao problema, objetivando reverter essa situação e fazer com que os seus trabalhadores reencontrem a satisfação perdida. Contudo, a ineficiência dessas soluções e a falta de conscientização por parte da administração em perceber a seriedade do assunto tem provocado a inexistência de empenho em mergulhar profundamente, implementando-se medidas tímidas e superficiais que acabaram por redundar em flagrantes fracassos. Ora, se a divisão do trabalho como está sendo praticada hoje, principalmente nas grandes organizações, castra o indivíduo ao ponto de considerar o trabalho uma atividade não interessante –e por isso deixa de ser produtivo – é prova mais do que suficiente de que o elemento técnico está se sobrepondo ao elemento social, filtrando a nossa inteligência e a nossa visão sobre as conseqüências. E aí, para compensar, criamos um amontoado de "benefícios"; concedemos uma série de aumentos salariais e inventando um sem-número de armadilhas pensando, inocentemente, em atrair a motivação dos empregados, esquecendo-nos que a causa de tudo isso está no próprio âmbito do cargo e das tarefas. O elo e o equilíbrio entre o sistema técnico e o social devem ser reatados. É preciso retornar às origens e permitir que o homem se sinta realmente parte integrante do conjunto. Fomos levados a pensar, durante décadas, em dividir o trabalho por tarefas, em função da eficiência econômica. Ora, se a divisão do trabalho é uma realidade necessária, por que não dividi-lo de outra forma? Por especialidade, por exemplo, e não por tarefa. Quebrar essa "tradição" pode parecer complicado, mas pode ser a luz que estamos procurando. Teremos que erradicar o mito que privilegia a experiência sobre as potencialidade (a partir da seleção de pessoal); teremos que investir em treinamento técnico e comportamental e no desenvolvimento do ambiente da organização, e teremos, finalmente, que pensar em trabalhadores polivalentes, que realizem todas as tarefas pertinentes à sua especialidade (e não somente aquelas limitadas por um cargo). Em outras palavras: a solução está na redefinição das responsabilidades, esquecendo a rigidez da descrição do cargo e buscando usufruir de todo o potencial inerente ao ser humano, construindo um profissional completo dentro de uma especialidade (mecânica, elétrica, desenho, PCP, vendas, contabilidade etc.), indo ao encontro de suas necessidades e liberando-o para a motivação. Para isso, é preciso derrubar alguns dos paradigmas que agem como obstáculo à nossa maneira de pensar, lembrando que, se continuarmos utilizando o sistema atual de divisão de trabalho, continuaremos usando apenas parcialmente as potencialidades humanas. Explorar ao máximo as potencialidades humanas não significa explorar o homem. Muito pelo contrário, significa oferecer-lhe a oportunidade de se desenvolver, tanto no cenário profissional como no social, recebendo, em contrapartida, o máximo de seu desempenho e da sua produtividade. Não é isso que se deseja?