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A CULTURA DO EMPREGO

O mundo todo apregoa o fim do emprego tal qual afirmava, até pouco tempo atrás, com absoluta convicção, que o mundo deveria acabar antes do ano 2000. O fim do mundo não aconteceu, tal qual não acontecerá o fim do emprego. É preciso convir que a economia mundial tem alavancado situações no mercado de trabalho que leva os pessimistas ou os menos visionários a acreditar na hipótese da proximidade do fim do emprego formal, sendo substituído por outras formas de trabalho. Tudo, porém, merece ser visto de um ângulo mais holístico, menos trágico e sob uma lógica muito simples: se a nossa sociedade não é capaz de continuar gerando empregos na mesma proporção que vinha fazendo, muito menos o será de sustentar um sem número de autônomos, comerciantes, consultores ou o que quer que venha a substituir o emprego formal. Estamos num momento de transição, sim, no que tange ao mundo do trabalho. Empresas mal estruturadas praticam o downsizing como medida de ajuste dos seus custos vis-a-vis com a concorrência que se agiganta a cada dia. E, assim fazendo, estão voltando as suas artilharias para as suas próprias trincheiras, na medida em que possibilitam o incremento da pobreza social. Pessoas sem dinheiro não compram a produção e no fim da linha o que se verá são empresas fechando as portas, sendo vendidas, em concordata ou mesmo à falência, como já está acontecendo. Se o que estamos buscando é um modus operandi para o suicídio global, estamos exatamente no caminho. Penso que estamos num looping mortal e que temos que inverter essa mão urgentemente. A saída não deve ser um incremento do desemprego que enfraquece e empobrece a massa de consumidores mas, ao contrário, a de aumentar oportunidades e garantir a sobrevivência e o desenvolvimento da sociedade. Como pensamos em manter uma sociedade viva se ao mesmo tempo em que criamos milhares de novos produtos e procuramos internalizar outros milhares de necessidades no inconsciente de cada um, excluímos do nosso meio os compradores potenciais? Creio que talvez seja irremediável algum ajuste estrutural em algumas organizações e por vias-de-conseqüência a transformação do perfil de certa mão-de-obra ou sua migração de um para outro segmento. Nunca, porém, a sua exclusão. A inversão do looping a que me refiro diz respeito ao sentido rotatório do fenômeno: admitam-se mais trabalhadores, para obter mais produção, vender mais e distribuir mais riqueza. Máquinas automáticas e robôs não compram produção, não consomem e portanto a economia que produzem é apenas virtual. A estória do homem que queria acostumar o seu burro a não comer, em busca de economia, nunca foi tão análoga. Só que como ele, não vamos esperar que o burro morra para dizer: que pena!, logo agora que ele estava se acostumando... É hora, então, de curvar-se diante da lógica da realidade e adotar uma nova linha de raciocínio onde a solução passe por caminhos que incluam a responsabilidade social das organizações como um algo rigorosamente necessário. Se não o fizermos por questões humanísticas façamo-no por inteligência.