Crônicas

Pai, te amo muito!

Meu velho, quero iniciar esta crônica -toda dedicada a você- confessando aquilo que nunca tive a coragem de lhe dizer - aliás como poucos filhos têm a coragem de dizer aos seus pais, de frente e olhos nos olhos: te amo meu velho!! Sempre te amei muito e sempre te amarei, até o infinito! Faça-me um favor, meu velho, como você sempre fez de bom grado quando eu lhe pedia alguma coisa, diga aos outros pais por ai que todos os seus filhos, juntos, me ajudaram a escrever esta crônica e a mensagem que ela contêm é a expressão não só minha, mas deles também: aqueles que um dia tiveram um pai e que hoje choram de saudade. Lembro de você ainda moço, forte, vigoroso e lutador, nos seus dias de trabalho debruçado sobre a prancheta de seus projetos arquitetônicos. Inteligente, bonito e querido como só você foi. Ah! meu velho, talvez naquela ânsia de garantir o meu futuro você nem se apercebeu que naquele presente uma criança de não mais de 10 anos, estava muitas vezes a lhe espreitar por detrás da porta do seu escritório, admirando-o como profissional, como homem, como pai e, principalmente como amigo. Era eu meu pai. Seu filho. Aquele que mesmo 25 anos depois de sua partida, ainda continua querendo imitá-lo e não consegue! Como você está, pai? Sabe, tem uma coisa que nunca lhe contei e está atravessada na minha garganta. Lembra de como você gostava de fumar? Pois é, mamãe sempre lhe dizia que você abusava desse vício e que um dia ainda isso lhe mataria. Um ano antes de sua última viagem o Dr. Jazon também lhe disse isso: “Don Pietro, acho bom o senhor parar de fumar se quiser continuar vivo por mais tempo...” E você, com 81 anos de idade e 65 de fumante, nos deu mais essa demonstração de força, de coragem e determinação. Aliás, nos deu mais uma prova de amor. Parou de fumar, não por sua causa mas porque amava a sua mulher, amava este seu filho e amava os seus netinhos e queria desacelerar a sua partida para ficar mais tempo com a gente. Que lição você me deu, meu velho! Nunca mais esqueci. Aliás, nisso consegui imitá-lo. Eu também parei de fumar pela mesma razão: amo a vida e tudo o que me rodeia. Pois é, velhão, a questão é que poucos meses depois de você ter feito aquele sacrifício imenso, deitado numa cama e rodeado de todos nós; sem aquele olhar seguro; os ombros caídos pela força do tempo; o olhar triste pela despedida iminente, você apertou pela última vez a minha mão e se foi. E eu carrego até hoje um sentimento de culpa por tê-lo encorajado a tomar aquela decisão. Creio que teria sido preferível incentivá-lo a se satisfazer com aquele seu pequeno gosto até o fim. Fazer um jovem evitar o cigarro é dever de todos nós, detentores de um mínimo de bom senso. Fazer um velho de 80 anos deixar o seu único gosto penso que chega a ser uma maldade. A única razão de eu sobreviver ao tormento dessa dúvida, pai, é saber que, lá de cima, você agora é capaz de avaliar que tudo o que fizemos foi por amá-lo e também desejar retardar a sua partida. Infelizmente nem você nem eu conseguimos, mas, um dia a gente dá um drible final nessa injustiça chamada morte e torna a se encontrar, é ou não é? Quero que saiba, paizão, que a pesar do tempo passar, inexoravelmente, a tua semente continua dando frutos (E que frutos! Precisa ver teus bisnetos que coisa mais linda!!) Mais um favor, pai. Se puder, diga aos filhos de hoje para não terem vergonha de dar um abraço e um beijo bem apertado em seus velhos, declarando todo o amor que sentem. Assim, pelo menos, um dia não terão necessidade de chorar de vontade de fazê-lo. Como eu choro agora. E.T. Fique por perto. Posso precisar de mais um favorzinho...