Crônicas

VOCÊ TEM MUITOS AMIGOS?

Vocês hão de concordar comigo que poucos são os que têm verdadeiros amigos hoje em dia. Certa vez, ao perceber que eu tinha poucos ou quase nenhum amigo eu pensei que alguma coisa estava errada comigo. Aliás, para dizer a verdade, percebi que amigo mesmo tinha um só: o Fernando. Fiquei preocupado com a constatação e comecei a dar tratos na bola: que será que está acontecendo? Será que é um problema meu ou será que esse fato acontece também com os outros? Como consegui chegar a um acordo, comecei a pesquisar junto àqueles que me rodeiam se estavam passando pelo mesmo problema que eu. Feliz, constatei que não sou o único: a maioria tem o mesmo sintoma. Triste, comprovei que a epidemia de faltas de amigos, nos atinge em pleno e a gente deixa passar batido. Nada fazemos para reverter a situação. Creio que este é um dos atributos que pagamos como cidadãos de uma megalópole onde não há tempo para nada, nem para cultivar nossas amizades. Dias desses liguei para um ex-colega de trabalho de 20 anos atrás, depois de constatar que não nos falávamos há mais de dois anos. Foi muito bom o reencontro, contudo, ao longo do papo – lembranças vão, lembranças vêm – verificamos meio tristes e estupefatos, que cada um de nós tinha seguido por um caminho tão diferente que nada ou quase nada restava da história que escrevemos a quatro mãos, muito menos do combustível essencial que alimentava os motores de mossa amizade: a cumplicidade. Resultado: um amigo a menos. Claro que continuaremos nos falando de vez em quando, nos respeitando mutuamente ( em nome do passado) mas ambos sentimos que aquela intimidade que nos permitia dizer ou fazer tudo que quiséssemos, já se foi, levando na garupa a nossa amizade. Por isso afirmo que amizade é aquela que você mantêm viva ao longo dos anos dedicando-se a ela e reservando parte do seu tempo para alimentar sentimentos mútuos e reforçar afinidades. No sentimento de amizade, tal como no amor, não pode haver superficialidade. Ou você se expõe e de mostra de corpo inteiro ou não é amigo. Por isso antes de afirmar que temos um amigo é preciso refletir quanto ao grau de “nudez” a que somos capazes de nos submeter junto a esse alguém; á cumplicidade existente; à profundidade da renúncia a que ambos se dispõe a aceitar em função do outro e, principalmente, ao desprendimento dos interesses egoísticos existentes na relação. Quando tudo isso existir, podemos afirmar que realmente temos um amigo. Caso contrário , é bom se conformar em saber que teremos apenas um colega ou simplesmente um conhecido. Como saber se a amizade é verdadeira? Muito fácil: é só precisar muito de um conforto, principalmente material, que você descobre na hora...