Crônicas

RETRATO DE UM VELHO

Há muito tempo eu não o via. Para dizer a verdade, exatamente 20 anos. Lembro-me da última vez quando nos encontramos, em Poços de Caldas, eu invejava a sua energia, sua coragem e a disposição que sempre tinha em enfrentar situações novas. E, principalmente, em contornar os grandes problemas de sua vida. Era definitivamente um homem forte, como jamais verei outro igual, razão de minha admiração por ele. Mente brilhante; memória de elefante; elegância e postura dignas de um “Sir”; charmoso e vencedor, ele sempre tinha uma frase ou uma palavra inteligente para cativar aqueles que o rodeavam. 20 anos se passaram e eu nunca mais o vi nem tive notícias dele. Minha memória, contudo, vez por outra, me fazia retornar no tempo e evocava sua imagem como para obrigar-me à comparação de um paradigma incomparável. Foram tantas as vezes que isso aconteceu que um belo dia resolvi entregar os pontos e retornar àquela linda estância de águas sulfurosas somente para revê-lo e carregar as minhas baterias com um pouco da energia que sempre pairava ao seu redor. Ao desembocar o meu carro na praça Pedro Sanches, o Central Park e principal point da cidade, senti um arrepio intenso a percorrer todo o meu corpo e, na hora, não procurei saber das razões. Nem dei muita importância tão embevecido que eu estava em rever a beleza daquela cidade após tantos anos de ausência. Fui direto para o seu endereço milenar da Rua São Paulo e, ao chegar, o primeiro choque: pessoas desconhecidas haviam ocupado o seu precioso espaço e questionadas por mim, nem sabiam explicar quem ele era nem se existia. Insisti com vizinhos, velhos comerciantes, aposentados e funcionários públicos que rondavam placidamente o local e nada. Parecia que eu estava falando de um fantasma, ou pior, de alguém que nunca teve tanta importância ao ponto de merecer sequer uma lembrança. Pela primeira vez me dei conta de que a ação do tempo talvez tivesse amarelado a sua imagem ao ponto de torná-la irreconhecível. Neguei a possibilidade de acreditar nessa hipótese e não por razões sentimentais apenas e sim por pura lógica: ele sempre foi forte e importante demais para os que o rodeavam para merecer um fim dessa ordem. Negativo. Mesmo porque isso não seria justo com alguém cuja história estava repleta de conquistas, exemplos e feitos dignos de um Guiness Book. Triste e frustrado por não ter podido revê-lo novamente, retornei à minha toca e curti um sentimento de solidão durante muito tempo: até que um dia soube através de um amigo comum que ele estava vivendo (?), sozinho, abandonado pelos filhos e pelos amigos, num asilo de velhos. Novamente neguei essa verdade. Não, isso não poderia ter acontecido com ele!! Logo com ele, tão querido, tão forte e tão vencedor sempre? Como é possível que os filhos não tiveram um pouco mais de amor e paciência para compreendê-lo nessa nova fase? Por que um pai tem toda a paciência e amor do mundo para criar um filho e este não retribui com a mesma moeda no fim da vida do seu velho? Por acaso ser criança e ser velho não é muito parecido? Então por que essa discriminação? Ou será desamor ou egoísmo em demasia? Quando chegar a minha vez talvez eu consiga entender essa razões. Contudo, ainda me nego sequer a cogitá-las. Hoje eu entendo o aviso daquele arrepio: foi um alerta da vida a me ensinar uma nova lição. O nosso valor enquanto indivíduos é diretamente proporcional ao poder que temos para dar ou para mudar as coisas. O dia em que perdermos esse poder, seremos tão somente, e na melhor das hipóteses, uma simples lembrança.