Crônicas

A RENOVAÇÃO DA VIDA

Poucas vezes, no decorrer de nossas vidas, temos a oportunidade de refleti sobre a nossa temporariedade, embora saibamos, desde o início que nascemos com uma única certeza: um dia teremos que morrer. Tal qual o avestruz, que enterra a sua cabeça no chão para se esconder do perigo, nós, os seres humanos, procuramos não pensar que a nossa vida tem um final certo e, em geral, fazemos questão de não nos preparar para esse momento. Todavia, querendo ou não, alguns acontecimentos nos obrigam, em etapas a enfrentar essa dura realidade. O tempo é um desses fatos, embora para nós ele vai passando tão devagar que não nos damos conta das mudanças que ele vai nos creditando, os outros percebem isso facilmente. Nós não. Um belo dia, porém, nascem os filhos, vão crescendo, tornam-se adultos e, então, começamos a ter uma vaga sensação de que estamos no meio da nossa caminhada. Isso, talvez ainda não nos preocupe. Afinal, o ditado popular diz que a vida do homem começa aos quarenta e, certamente, nesse momento, nós temos uma idade até inferior a essa. Ou seja, vivemos sob a impressão de que “tudo ainda está no começo”. Se o custo da renovação é entregar a própria vida para abrir espaço àquele que acabou de chegar, pois que seja! Valeu a pena viver! O dia em que nossos filhos se casam, passados os momentos felizes do evento, vemo-nos assaltados pela inexorável constatação da missão cumprida. Nesta fase, sim, começamos realmente a fazer o primeiro balanço da nossa vida e a insegurança do amanhã começa a bater à porta. Pela primeira vez retroagimos no tempo e evocamos épocas da nossa juventude revendo, na imagem atual dos nossos filhos, a nossa própria imagem do passado. O brilho e a timidez do olhar dos filhotes, o tamanho de suas mãos, o tipo de cabelo e quem sabe inúmeros outros detalhes físicos e de comportamento são o testemunho fiel de que a nossa tribo segue o rumo infinito da semelhança da espécie. Essas constatações fazem-nos pensar na grandeza da renovação da vida, na multiplicação da identidade no tempo e, também, na dialética realística da vida: é preciso alguém morrer para dar lugar a quem nasceu. A vida do homem é uma imitação da vida botânica: a planta cresce, cria ramos, que criam flores, que criarão novas plantas, que darão lugar às anteriores. O último e principal ato dessa ópera, acontece no dia em que um dos nossos filhos nos apresenta o seu filho, dizendo: pai, este é o seu neto! O meu neto?? Eu, vovô? Como assim? Pois é, a casa caiu! É a prova final que não queríamos. É a testemunha final incontestável. Nasceu a flor que dará lugar à velha planta! Olhamos bem para aquele pequenino ser que acabou de chegar e, diante da impotência em poder reprimir o nó na garganta, ficamos emudecidos. Diante da impossibilidade de represar as lágrimas de felicidade que inundam os nossos olhos, simplesmente deixamos rolar e abraçamos aquele pedaço de nós mesmos, esquecendo-nos de tudo que ele representa com relação à nossa vida, ao nosso futuro, ao nosso fim. O sentimento do milagre da renovação é mais forte que a constatação da proximidade do fim do caminho. Sem titubear, aceitamos de imediato o título de vovô, agradecendo a Deus a oportunidade de Ter produzido a semente da semente e de pode observar embevecidos os frutos dos frutos. Se o custo disso é a nossa própria vida, não há dúvida de que valeu a pena ter vivido e valerá morrer por eles.