Crônicas

A CRISE DO CASAMENTO

Como muitas coisas na vida, no começo é uma maravilha. Quem não é capaz de lembrar os anos de namoro, de flerte e do "faz -de-conta" dos primeiros anos de casamento? Essa parte da vida é sempre marcada por aconteci­mentos interessantes e nunca por lembranças negativas. Também, pudera: é uma época em que não se pensa noutra coisa a não ser estar junto do ser amado, aplacando aquela paixão ainda represada e praticando um romantismo mútuo e repleto de detalhes de sensualidade, beleza e educação, como aquele que cerca todos os relaciona­mentos iniciais. Com o passar do tempo, contudo, o coração começa a dar lugar à razão e aí os parceiros começam a analisar, de fato, os comporta­mentos do outro sem o filtro e a mio­pia da paixão inicial. Surgem então, as diferenças dos valores individuais que quase sempre se chocam, quando mal administradas, provocando discussões, ciúmes, frustrações, sentimentos de perda e final­mente a separação. Não é preciso re­correr às estatísticas para se ter uma idéia da falência do casamento moderno. Basta olhar ao redor. Há apenas 10 anos atrás dizia-se que o casa­mento que conseguisse ultrapassar dos 7 anos, tinha boas probabilidades de um final feliz. Hoje, vê-se que após 3 ou 4 anos o final já é infeliz. Embora não sei bem se o termo é esse, afinal os casais ditos modernos separam-se "numa boa", continuam sendo amigos e partem para outro relacionamento sem aparentes traumas. Mas é óbvio que os traumas existem e acabam por moldar a personalidade dos descasa­dos. Ainda mais se deixaram, no caminho, a existência de algum filho. O fato é que o casamento, como ele é praticado hoje, tende a chegar a um fim próximo. Preferível é que os casais habitem por um certo tempo sob o mesmo teto e, só depois que a razão apresentar boas possibilidades de conjugar o amor, a amizade, o respeito e o sexo na primeira pessoa do plural, decidam sacramentar a decisão de formar um lar. Assim, ao menos, não haveria tantos adolescentes problemáticos, tanta in­segurança e tanto uso de drogas. O casamento enquanto instituição tradicional, tem mantido a figura do homem como responsável pelo sustento da família e como exemplo de braveza e coragem; tem dado à mulher, a imagem de mantenedora do amor, de defensora do lar e de exemplo maior na educação para os filhotes. Em outras palavras, tempos houve em que os papeis eram bem definidos, as responsabilidades bem divididas e os resulta­dos muito mais significativos. Hoje, parece que as coisas tomaram outros rumos: o homem deixou de ser tão responsável quanto antigamente e a mulher passou a se preocupar mais com o seu papel na sociedade do que com aquele do seu lar. Ele, premido pela agressividade da vida, procura lenitivos outros que não o carinho e a compreensão de sua companheira. Ela, por sua vez, desdenha as tarefas e as responsabilidades de "dona de casa" em favor de uma pseudo liberdade conseguida através de um cartão de ponto. Até o momento que surge, entre eles, a figura do outro ou da outra, desejando apossar-se de tudo aquilo que parecia não ter mais valor e provocando um novo começar. Será que vale mesmo a pena, passar por tudo isso?