Crônicas

A VERGONHA DE AMAR

Hoje - e de há muito tempo - resolvi dedicar alguma linhas a este tema que, embora possa parecer esgotado, nunca o será por mais que se escreva. E por uma razão muito simples: o amor nunca se esgotará enquanto vivermos em sociedade e formos seres imperfeitos e dotados de sensibilidade. Talvez o dia em que a racionalidade consiga nocautear de vez com os sentimentos e o egoísmo impere nos cérebros das pessoas com mais força do que o altruísmo, ai sim vamos ter saudade ao lembrar-nos como era gostoso não precisar reprimir ou esconder os nossos sentimentos. Seja Feliz: não tenha vergonha em demonstrar que sabe amar Espero não vivenciar esse futuro. Prefiro ir-me antes dessa nova onda, embora me parece que ela não vai tardar muito. Aliás, diga-se de passagem, ela já está chegando. Dizem por ai que é careta as pessoas se emocionarem em público e deixarem rolar algumas lágrimas bochecha abaixo. É tão raro e está se tornando uma coisa tão fora do comum que chega a ser excêntrico você demonstrar emoção publicamente. A televisão sempre atenta ao que o público deseja, já explora esse lado expondo pessoas como se fossem seres de outro planeta estimulando-os a chorar: vejam, como exemplo o programa domingueiro do Faustão... Parece que chorar, hoje em dia é tido como sinal de fraqueza, e pelos padrões da modernidade é preciso se mostrar forte, mesmo que seja só na aparência, no mínimo para atender ao instinto natural e a necessidade de sobreviver. A aparência é algo que a cada dia tem mais valor. Lá se foram os dias em que o que importava era o conteúdo, aquilo que você trazia como bagagem (cultura, educação, sentimentos, etc.), A velocidade que o próximo século nos impõe, não nos permite mais perder tempo com pequenos detalhes como esses. É bater o olho e apostar. Por isso a aparência é importante, porque não dá mais para avaliar o conteúdo. Por essas razões, também, o amor entre as pessoas é algo que, acredito, tende a desaparecer com o tempo. Pelo menos essa forma de amar que cultivamos por muito tempo e que ainda, meio que escondidos, continuamos a praticar. Dias atrás, fui levar a Louise, minha filhinha de 2 anos e meio, para dar a sua primeira volta de metrô: de mãos dadas percorremos as escadas rolantes (ela adora mostrar que já saber subir e descer esses veículos) e entramos no dito cujo que, acredito, aos olhos dela deveria estar muito parecido com o dragão da última estorinha que inventei para que ela comesse a sua papita. Simplesmente não agüentei os seus olhos de espanto e admiração ao ver tanta coisa nova dentro do trenzinho e, principalmente, o seu contentamento quando o dragão começou a correr. Cobri-a de beijos e envolvendo-a num abraço que nunca esqueceremos -nem ela nem eu- sem me aperceber declarei o meu amor a ela descaradamente, em público, sem me aperceber que todos à minha volta estavam ouvindo e olhando meio que achando esquisito tudo aquilo... Coisas de antigamente, quando a gente não tinha vergonha de mostrar uma lágrima de felicidade rolar pelas faces ou, simplesmente, gritar aos quatro ventos: Eu te amo! Deveria haver um movimento popular que resgatasse esse tipo de coisa. No mínimo as pessoas seriam mais felizes...