Crônicas

O SALÁRIO DO MEDO

Numa analogia a um dos maiores filmes que a França já produziu, no terreno do suspense, o título da coluna de hoje lança uma nova forma de identificar a remuneração do trabalhador brasileiro Você sabia que existem sete formas diversas para identificar aqueles minguados reais que recebe em troca do seu trabalho? Pois é, vá contando: salário real; salário complessivo; salário mínimo; salário absoluto; salário nominal; salário efetivo e salário profissional. É tanto nome que até parece ser um assunto extremamente importante somente para quem o recebe: o trabalhador. Contudo, de tão desgastado, dentro de pouco tempo nem para o próprio trabalhador terá a importância que tem hoje. O salário mínimo atual, na casa dos vergonhosos 70 dólares, é um dos mais baixos do planeta. E não é só ele. Pesquisa salarial recente demonstrou que o salário médio mensal do pessoal administrativo está na casa dos 700 dólares mensais (aproximadamente 1500 reais) enquanto em países de primeiro mundo cega a ser 4 a 5 vezes superior. Quer dizer que o trabalhador brasileiro, trabalhando tanto ou mais do que o seu colega americano ou europeu receber, por isso, 4 a 5 vezes menos! E apesar de tudo isso, sem condições e alternativas, o trabalhador corre atrás de um salário (tenha ele o apelido que tiver), dando graças por, ainda, poder contar com ele. O nível atual de desemprego no Brasil, um dos mais altos de sua história, provoca ainda mais o rebaixamento dos salários dos trabalhadores, e faz com que, numa crítica mordaz, batizemos o salário com um novo apelido: o salário do medo. A razão do novo nome é facilmente explicável: quem está empregado, vive atormentado e ansioso pois assiste dia após dia a uma corrida ingrata para ver quem acaba primeiro: o seu salário ou o mês, instala-se a neurose coletiva de como resolver uma situação “irresolvível”. Por outro lado, aquele que está empregado e pensa ganhar relativamente bem, está tão apavorado (o salário do pavor...) com a possibilidade da empresa demiti-lo e admitir alguém com um salário menor, que chega até a ter inveja de quem ganha menos do que ele. E o seu pavor não é sem razão. Há quase dois milhões de desempregados no Brasil, lutando, palmo a palmo, pela possibilidade de retornar ao trabalho não importa em que situação!