Crônicas

OS PERIGOS DA COMUNICAÇÃO

Embora a arte da comunicação tenha sido um dos primeiros instrumentos utilizados pelo homem, para garantir a sua sobrevivência, quase dois mil anos depois constata-se que, embora tenhamos evoluído muito, ainda temos outro tanto a apreender, a nível individual. Por um lado, passamos dos grunhidos inteligíveis para a gesticulação; da gesticulação para o desenho; dos desenhos para o uso de tambores; dos tambores para o telegrafo e deste para o telefone, telex, computadores e fac-símile; o avanço tecnológico foi inegável e revolucionário! Por outro lado, analisando sob o prisma do desenvolvimento individual (e não do sistema), percebemos que ainda temos muito a apreender e percorrer, no caminho do aperfeiçoamento do “como” nos comunicar com os nossos semelhantes. Parece uma controvérsia, mas os anos 90 ainda registram problemas básicos na comunicação entre as pessoas, ao ponto destes se tornarem causa de grande parte dos conflitos do nosso dia-a-dia. O ato de comunicar-se envolve questões muito delicadas que ainda não aprendemos a controlar, se não, vejamos: em toda comunicação estão implícitos três técnicas fundamentais, (a) a transmissão, (b) a recepção e (c) a interpretação. Uma falha em qualquer dos três estágios anteriores pode resultar em algo completamente inverso ao esperado, levando nos ao conflito. É suficiente, para isso, que a nossa mensagem não seja suficientemente clara ou seja dúbia, ou que o receptor (aquele que nos ouve) faça uma interpretação distinta daquela que nós havíamos imaginado, para que se estabeleça a confusão... Técnicas ou aprendizado à parte, hoje em dia é comum as pessoas dizerem ou explicarem certas coisas com palavras inadequadas ou num formato inacabado, permitindo assim, o nascimento de versões particulares, que resultam no conhecido ”disse-não-disse”, responsável pelas grandes confusões. Somos testemunhas disso no cenário político, nas ordens do chefe, nas promessas dos prestadores de serviço e em milhares de outras ocasiões do dia-a-dia. A frase comum é a seguinte “ Não, meu senhor, não foi bem isso que eu disse...”. Quem sabe? Pode ser que tenha sido exatamente isso que ele disse, mas na verdade queria dizer outra coisa. Ou talvez não fora bem aquilo que disse realmente, mas nós interpretamos que foi. O fato é daí, nascem problemas e brechas para outro fenômeno, por sinal, bem arraigado em nossa sociedade: a fofoca. A fofoca tem, na verdade, dois genitores: a vontade pessoal de criar uma informação inverídica ou possível (mas não real) possibilitando-nos aparecer como “pessoas informadas” e, consequentemente, revestidas de um certo poder; e o despreparo em receber e interpretar as informações que recebemos. Parece, no entanto que tanto a primeira razão como a Segunda, trazem no seu bojo o desejo mórbido de praticar a fofocagem, a calúnia e até a destruição da verdade, sem nenhuma preocupação com aquilo que poderá acontecer com os envolvidos. Ignorância ou irresponsabilidade? Independente das causas , já é hora de repensarmos nessa questão, lembrando que a prática da comunicação, nesses moldes, além de estar prejudicando a vida de todos, impõe-nos um caminho de negativismo extremamente perigoso.