Crônicas

O VÍCIO DO CONSUMO

Vício, sim. Em principio o que deveria ser uma simples e natural necessidade, no decorrer do tempo tornou-se um terrível vício para todos nós. Já se foram os tempos em que comprar era sinônimo de adquirir um bem pelo simples motivo de sobreviver. Nessa época, os artigos de primeira necessidade eram praticamente os únicos a nos preocupar. Com o passar do tempo, o espantoso crescimento populacional do planeta e a modernização tecnológica, estamos criando e aceitando, a cada dia que passa, novos tipos de necessidades diferentes. Como exemplo para ilustrar o que queremos dizer, aí estão os enlatados: ervilhas, milho, feijoada, sopas, polpa de tomate, doces, etc. etc. os quais – como tantos outros produtos “sui-generis” – lotam as prateleiras dos supermercados à espera daqueles que com a desculpa da falta de tempo ou as facilidade do “encontrar pronto” enchem os seus carrinhos a todo vapor. Não seria justo deixar de ressaltar as facilidades que o mundo moderno nos proporciona, ao oferecer-nos milhares de produtos já prontos para o consumo. É preciso refletir, todavia, no custo dessas compras. E não quero me referir somente ao custo financeiro, embora, assim fazendo, triplicamos os nossos gastos, mas, quero alertar para o custo cultural proveniente da mudança do hábito de comprar. Em primeiro lugar, creio que a institucionalização do hábito de adquirir produtos prontos para o consumo, nos fez ficar independentes ao extremo das facilidades que representam. Isto é: aquilo que deveria ser comprado apenas para solucionar momentos emergenciais como uma visita inesperada; um mal estar repentino que impeça o preparo de alimentos; uma refeição de última hora e sem nenhuma necessidade aparente. Assim, ao decidir fazer as compras do mês (ou da semana) obrigatoriamente e sem nos darmos conta, incluímos, na nossa lista, itens supérfluos como se fosse realmente necessários. E o vício não pára por aí. A febre é congênita e atinge todos os nossos neurônios, criando a ”síndrome da novidade” que nos leva a querer sempre tudo o que for lançado como novo. Assim acontece com o automóvel, com as roupas, com os móveis de casa, com objetos de uso pessoal, etc. etc. Parece que o “ american-way-of-life” tomou mesmo conta de todos nós. Pena que a gente não se dá conta que imitamos os nossos irmãos norte-americanos apenas no hábito de querer comprar, porque no de comprar propriamente dito estamos a quilômetros de distância. Que o digam os nossos salários! Ainda bem que sempre damos um jeitinho: é cheque para 15 dias; é cheque sem fundo; é cartão de crédito; crediário ou consórcio. O que importa é satisfazer as necessidades do momento ( quais necessidades?) e ostentar um “status” social mesmo que aparente. O dia de amanhã só a Deus pertence... Em segundo lugar, a qualidade do que adquirimos passou, na maioria das vezes, em segundo plano. Ultimamente o prazo de validade é bom. O conteúdo perdeu espaço para a embalagem. Duvidam? Existem certos produtos cujo custo da embalagem supera, em muito, o custo do seu interior. E assim mesmo os compramos . Mesmo sem a certeza de estarmos adquirindo um produto que realmente atinge o que se propõe a fazer na publicidade. Quantos produtos as entidades governamentais tiveram que retirar do mercado pela sua inutilidade? Quantos ainda restam por aí? Quantos estão brigando entre si, pela hegemonia de uma imagem que promete milagres? Mas a gente não quer saber. Continuamos alimentando o nosso vício de cada dia. Mesmo sabendo que a propaganda acaba encarecendo o produto que quem paga é sempre o consumidor, continuamos assistindo aos comerciais, cada vez mais com saudade da época da “nonna” ou da “mamma”, quando a vida era menos complicada e mais saudável.