Crônicas

BRASILEIRO, POR OPÇÃO.

Muitos de nós, que um dia desembarcaram nestas terras sentem, em algum momento, na frase “ah!, você não é brasileiro!” uma espécie de sentimento de magoa por ser entendido como alguém que não pertence a tribo. Alguém, que por origem, não faz parte da grande orquestra e portanto, deverá desafinar em algum momento da sua execução. A questão é delicada e toca fundo nesses “estrangeiros” de longa data. A bem da verdade, é preciso definir claramente certas diferenças fundamentais para evitar mal entendidos desnecessários. É preciso distinguir entre o turista: aquele que aqui vem para passar uma temporada ( a trabalho ou a turismo ) daquele que a dez, vinte ou trinta anos faz parte da nação. A palavra “estrangeiro”, dependendo de como ela é colocada, pode até discriminar provocando um sentimento de separativismo em quem está ouvindo. Um dos melhores exemplos do que quero explicar é dos nossos jogadores de futebol, convocados que foram dos seus times atuais, na Europa. Todos nós acompanhamos o codinome que a imprensa lhes reservou e a reação detonada por parte dos mesmos. Desde de quando um Careca ou um Romário deixaram de ser brasileiros? Pelo simples fato de trabalharem e morarem em outro país? Nada mais injusto, imbecil e indelicado! E o pior é que, quando a crise na seleção estava na fase aguda, nas ruas só se ouvia falar da diferença entre os “nossos” jogadores e os “estrangeiros“ como se a diferença realmente existisse. Ser brasileiro por opção é amar e respeitar a história do povo acima de tudo Pois é, se isso chegou a acontecer com alguém que não é estrangeiro , é de se imaginar o que se passa em relação àqueles que realmente o são ou foram algum dia. Creio que para fazer justiça à esse preconceito ou a esse mal entendido, é preciso definir algumas diferenças fundamentais entre o que é ser brasileiro e o que é ser “estrangeiro”, e para isso, vou usar-me em exemplo: nascido em Mônaco (Montecarlo), com 5 anos fui junto com a família morar em Gênova (Itália), terra do meu pai. Quando eu contava o meu décimo aniversário minha família mudou-se para Buenos Aires (Argentina) e nos meus 19 anos o velho “Andréa C” deixou-nos de mala e cuia no porto de Santos. Isso em 1958. Nestes 35 anos de Brasil, fui mineiro do interior (uai!) e da capital; fui carioca (da clara) e paulista da garoa (com direito às neuroses, gastrites e rinites alérgicas, como manda o figurino local). Até algum tempo, depois de aqui ter chegado (talvez 3 ou 4 anos), sem dúvida, eu mesmo ainda me considerava estrangeiro. Afinal, eram mais de vinte anos de vivência fora do Brasil contra apenas alguns por aqui. Contudo com a chegada do casamento e dos filhos, o carinho e a dedicação dos amigos, vizinhos e colegas de trabalho, a transformação foi naturalmente acontecendo e, sem perceber, um belo dia comecei a sentir um arrepio percorrer todo o meu corpo ao ouvir os primeiros acordes do hino nacional brasileiro. De lá para cá, o amor pelo Brasil tomou conta de todos os meus poros e, sem lenço nem documento, a camisa verde-amarela foi se ajustando de tal maneira ao meu peito que, hoje, ela é minha própria pele. Brasileiro é aquele que ama o solo que pisa. É aquele que conhece a sua história e respeita os seus símbolos e sua cultura. E, principalmente, é aquele que luta com todas as armas que possui para defender cada palmo deste chão e os seus irmãos – ricos ou pobres, pretos ou brancos – aceitando todas as suas virtudes e defeitos. Aquele que não sente e não prática isso é realmente um estrangeiro, mesmo que tenha sido parido em berço esplêndido.