Crônicas

O BALANÇO DO CARNAVAL

Já é hora de respirar os ares do novo ano. Para os incrédulos ou para aqueles que ainda não pescaram o sentido, relembro que no Brasil o ano novo começa sempre após o carnaval. Nunca antes. Janeiro é um mês considerado de férias: logo não conta. Fevereiro, bem, fevereiro como diz o poeta, tem carnaval, logo, meu caro, como ninguém é de ferro, é preciso ter paciência e esperar um tempinho para que passe essa bendita fase (a do carnaval...) e aí sim começar a pensar no trabalho. O maior espetáculo brasileiro não é o carnaval: é a beleza e a alegria do seu povo ! Não foi bem isso que eu quis dizer, por favor não levem a coisa tão ao pé da letra: não precisa começar logo após o carnaval, afinal, o Rei Momo nos permite pular durante 4 dias e, como a gente se considera um súdito cumpridor das ordens, pulamos sem parar. Aliás, a bem da verdade é preciso que se reconheça que nessa época somos subordinados exemplares do Rei Momo: fazemos até hora extra de livre e expontânea vontade! O fato é que deixamos de sambar, oficialmente, somente ao iniciar o mês de março. Muito embora pulemos miudinho o ano inteiro. As empresas, testemunhas oculares do que estou afirmando, somente começam a planejar seus objetivos reais a partir dessa data. Que ninguém é besta de querer contrariar uma lei natural como é a da pulação carnavalesca. Até mesmo as multinacionais entram no esquema: aliás, diga-se de passagem, os gringos são os primeiros a babar na avenida de olhos esbugalhados, é ou não é? Nessa época eu me pergunto: se o carnaval daqui fosse como é na Europa, será que também faríamos horas extras, estendendo o sacrifício até o final de fevereiro? Será que a avenida ficaria tão lotada de gente bem intencionada em ver somente máscaras, carros alegóricos e flores? Ou será que a força do samba seria suficiente para levar a massa de gente que lota milhares de metros quadrados durante horas a fio para ver o maior espetáculo da terra? Afinal, qual a força maior desse fenômeno? A música; a dança; as alegorias ou as mulheres? Ou é a magia do momento, que tudo permite e tudo acoberta sob a desculpa da alegria? Talvez seja uma oportunidade de fugirmos dos problemas durante alguns dias e refugiar-nos no mundo do faz-de-conta, liberando nossos instintos selvagens e agindo exatamente ao contrário de como faríamos nos demais 361 dias. O balanço do carnaval (não o da música, mas o que registra os ativos e os passivos) no Brasil é sempre positivo. Acima de qualquer suspeita ou de qualquer pensamento mórbido, está a alegria sadia de um povo sofrido mas esperançoso que, ao repique inigualável de um tamborim, abre o seu coração e seus braços extasiando o mundo inteiro com a sua beleza.