Crônicas

O DIA-A-DIA DE CADA UM

Abra os olhos e penso: que horas são? O meu dia já vai começar? Olho o relógio, na mesa de cabeceira, e mal vejo, ainda sob o efeito do sono, os ponteiros me sinalizando 5 horas da manhã. Olhando para o lado, checo se minha mulher está bem (está é ma das cenas mais bonitas: admirar a beleza da nossa companheira em pleno momento de naturalidade!) e início a rotina matinal: avalio meu estado geral no espelho (como o tempo passa!); escovo os dentes; penteio os cabelos; ensaio alguns movimentos de pseudo ginástica e lá vou para o fogão começar o ritual do café. O Mariano (gato sem raça e rei da malandragem) já começa a me rodear, apontando o rabo para as estrelas e miando feito louco para ganhar o seu primeiro pires de leite morna que, como sempre, tem prioridade. E ele, meu amigão, nada? Ele é o meu cachorro Rock ( um boxer inglês, com o coração maior que a boca). Olho a porta da cozinha e lá está ele. De plantão esperando o meu carinho e (lógico) o seu pãozinho de todo dia, eu ninguém é de ferro... A seguir, vejo-me falando com o Mariano e o Rock, como de fossem meus filhos. Dou-lhes um puxão de orelhas, dezenas de carícias e conselhos de como devem se portar. A seguir, acompanhado da presença e do olhar circunspecto dos meus amigos, início a leitura das notícias. Lá pelas 6 horas, o olhar do Rock já me cobra o seu passeio matutino, e, pelo jeito, não vou poder driblar a sua vontade. Saio à rua e olhando o céu de São Paulo, penso na grandeza da minha cidade e na beleza que é constatar que, nesse momento, as pessoas despidas de qualquer sentimento de “status” estarão como eu, iniciando a mesma rotina da vida. Andando pelas ruas do bairro, vou percebendo luzes se acendendo, rádios sendo ligados, pessoas iniciando a caminhada ao trabalho, padarias abrindo portas, empregadas e donas de casa recolhendo a garrafa de leite e enquanto compartilho com o Rock a alegria de cheirar cada árvore que passa, vou pensando sobre as razões que nos obrigam a mostrar-nos tão diferente se no fundo somos tão iguais. Dezenas de quadras mais tarde, percebo a razão do meu prazer em caminhar tão cedo pelas ruas: não é um simples momento de exercitar o físico. É a magia de poder desligar o cérebro da rotina e dar asa ao pensamento e a reflexão. Pensar nas pessoas, nas razões da existência, procurar respostas para certas questões fundamentais, reavaliar o meu comportamento e fazer um balanço de minha vida. Todos nós precisamos desses momentos e temos que tê-los. De volta ao lar, dia já claro, ganho o primeiro beijo da minha mulher e, assim fortalecido, vou a caminho do escritório para começar um outro dia de trabalho. Ao entrar na minha sala de trabalho não consigo reprimir uma pergunta: até quando vou poder me sentar e continuar aqui? ( é o receio e a insegurança da “viagem final”) O que será que vem “depois”? Vencendo mais uma vez, esses pensamentos passageiros, sento-me frente ao computador e começo a escrever esta confissão para Ter o prazer de pensar em você, leitor que, como eu, deve estar pensando: puxa vida, numa coisa o Jean Pierre tem razão: somos todos tão iguais!