Crônicas

O custo da honestidade

Centenas de vezes, durante todo o meu trajeto de vida profissional, tenho tido a oportunidade de discutir e ouvir o que as pessoas pensam com relação a manter atitudes honestas junto às em­presas que trabalham. Refiro-me à questão do conhecido "PF" (por fora), ou seja, aquele ganho que alguém recebe (ou pede) para concretizar algum tipo de negócio com a em­presa. De uma maneira geral, isto acontece quando a organização necessita adquirir algum bem ou serviço no mercado, hora em que o responsável pela com­pra ou contratação, faz uma "cotação" com diversas fontes e acaba escolhendo aquela que, por motivos diversos, mais interessa. Aí é que entra o PF. Isto é: a escolha de onde comprar ou de quem contratar -para um determinado serviço- acaba re­caindo, nesses casos, naquele fornece­dor que se dispõe a pagar, por fora do preço contratado, um percentual (que pode variar de 10 a 20%) àquele que toma a decisão em nome da empresa. Esse comporta­mento não é, de há muito tempo, exceção; é regra. A exceção é encontrar aqueles que fazem a escolha pura­mente baseados no interesse da organização. Sem pedir, nem sugerir nada. As áreas mais visadas para se instaurar o PF, em geral são aquelas que contratam serviços externos, as de compras e as de vendas. Ao pesquisar junto a alguns executivos (honestos) dessas áreas sobre como fazem para conviver com essa anormalidade (?), sinto que a tarefa por de­mais complicada. "Desfazer-se de uma imagem negativa como essa é coisa de super-homem -disse-me um deles- pois mesmo que você não esteja "levando" nada, sempre vai ter alguém, dentro da firma que vai dizer que a troca do seu carro, ou a re­forma de sua casa ou aquela viagem de fim de semana, foi graças aos PF's que você recebeu" As vezes é preciso de alguns anos para se provar que se é honesto e, até lá, o caminho é árduo. Por outro lado, pesquisando junto àqueles que recebem os PF's, registro o seguinte argumento: Se eu recebo, vão dizer que recebi, se não recebo também vão dizer que recebi. Então prefiro arriscar e receber. Um dia a empresa vai me dar um pontapé no traseiro, mesmo! Pelo menos eu terei feito o meu pé de meia e fica­rei menos preocupado. Não seria o caso de dizer o mesmo que o repórter do SBT? "Estando bom para ambas as partes..." é o aqui e agora do Brasil. Como sair dessa? Como mudar esse comportamento das pessoas, de continuar sempre querendo levar vantagem em tudo? Os noticiários inter­nacionais nos mostram que até nos níveis mais altos o PF tem seu lugar garantido. É na Itália, é no Japão (quem diria, é?), é no mundo inteiro. Parece que aquela malfadada publicidade do Gerson, não é produto tipicamente brasileiro. Tal­vez tenham se inspirado "al di lá del mondo", quem sabe? O fato é que honestidade é algo que vai desaparecendo do sistema de valores das pessoas, dando lugar ao egoísmo. Deixa-se de pensar no todo, para preocupar-se somente no individual. Isto é extremamente perigoso se pensar­mos na coletividade social e nos comportamentos que essas atitudes ge­ram nas massas. Não seria de estranhar se um dia for­mos instituir prêmios, gratificações ou coisas "sui-generis" para aqueles que comprovadamente sejam honestos. É só o que faltava...