Crônicas

Palavra de homem

Uma das coisas que mais nos aborrece, hoje em dia, é a falta de autenticidade das pessoas. Foi-se o tempo em que a gente podia acreditar no que os outros diziam e podia confiar plenamente na palavra dos outros. Lembro-me muito bem como as coisas aconteciam vinte ou trinta anos atrás: o homem tinha orgulho daquilo que acordava e nem era preciso "colocar as coisas no papel". Quando alguém empenhava a sua palavra, podia acontecer tudo, menos voltar atrás. A maioria das pessoas mostrava-se como eram na realidade: sem subterfúgios, sem disfarces e sem mentiras. Dessa forma, era mais fácil e muito mais interessante você estabelecer relações e até negócios com os outros. Pairava, no ar um sentimento de credibilidade e segurança, emoldurando os compromissos gerados e fazendo com que nenhuma das partes envolvidas transgredisse esse princípio de fidelidade ao que foi dito ou compromissado. Era uma época em que uma palavra valia mais do que dez folhas escritas. E o homem se orgulhava disso, propagando essa virtude aos quatro ventos. Os tempos modernos alteraram o comportamento do homem e, infelizmente, entre essas alterações encontramos algumas que parecem sem sentido, ou sem razão aparente que justifiquem a mudança. Uma delas é a crescente falta de credibilidade do homem em si próprio. Nos dias de hoje não só é difícil a gente acreditar nos outros como dá a impressão que, se você acredita "a priori", acaba passando a imagem de ingênuo, bobo ou coisa pior. Parece que a incredulidade passou a ser uma virtude ou uma condição necessária à sobrevivência. Chegamos ao ponto da própria justiça nos alertar com relação à assinatura de contratos, tomando o máximo de cuidado com aquelas "cláusulas" em letras bem pequeninas que tentam esconder, nas entrelinhas, o que não se tem coragem de mostrar abertamente. Será que perdemos a propriedade de falar e negociar clara e inteligentemente, ou será que utilizamos o subterfúgio da ambigüidade das palavras e dos atos para poder atrair os nossos semelhantes a que pensem da forma que nos interessa? Seja qual for a razão, só nos resta lamentar o fato. Quem sai perdendo, com esse tipo de comportamento, somos nós mesmos pois criamos uma maneira de ser que prejudica o próprio criador. Bela maneira de ser inteligente! Essa "inteligência" é diretamente proporcional ao padrão de vida. Já perceberam como nas classes menos favorecidas ainda continua prevalecendo o valor da palavra dada? Pois é, entre as pessoas mais humildes ou menos "preparadas" culturalmente o melhor contrato é a palavra; o melhor acerto é aquele acordado verbalmente entre as partes. Nas camadas superiores da população, as coisas não ocorrem dessa maneira. Testemunhas, contratos, acordos escritos, cópias autenticadas e mil outras burocracias foram inventadas com o intuito de cercar a nossa falta de autenticidade. E, o que é pior, mesmo com toda essa parafernália, continuamos sempre desconfiando dos nossos semelhantes, com receio de sermos passados para trás e buscando novas alternativas para fugir das arapucas que nós mesmos inventamos e que nos cercam a cada curva da vida.