Crônicas

Coisas do Brooklin

Era uma terça feira como outra qualquer. Afora a crise que se faz sentir no bolso e no saldo do cheque especial; afora os medos e angústias que já fazem parte da neura de todo paulistano, o céu estava revestido de um azul poucas vezes visto. Aquele dia estava especialmente desenhado para tirar a gravata, desabotoar -pelo menos- dois botões da camisa, respirar fundo e curtir a paisagem. Foi o que eu fiz. Mandei tudo para o inferno: cancelei compromissos, adiei reuniões, congelei tarefas inadiáveis e saí por ai. Ao dar os primeiros passos, em busca do nada, percebi que era muito egoísmo eu querer desfrutar daquela bela manhã sozinho. Não tive dúvidas. Voltei prá casa novamente e tirei o meu tesouro do seu lugar de costume, enfeitei-a com alguns badulaques para ficar ainda mais linda, coloquei-a no seu carrinho e - plagiando o Vinicius - voltei prá minha nota. Ah! o nome dela é Louise. É minha caçulinha, tem um aninho e é a coisa mais linda que já vocês já devem ter visto passar... Pois é, lá fomos nós. Eu e a “Lú”, cheios de vontade de aproveitar aquela terça feira ensolarada, perfumada, calma e bonita que São Paulo estava nos presenteando. Aliás, logo que contornamos a Rua Michigan percebi que minha decisão foi acertada. A baixinha não parava de falar e gesticular, do alto o seu carrinho. A Nicoleta, nossa vizinha, mulher muito perspicaz e inteligente já me antecipou que a Louise será uma artista ou uma comunicadora. É impressionante como ela participa de tudo em sua volta e se esforça para se fazer entender! Eu confesso que apesar de dominar outros idiomas, ainda tenho muita dificuldade de entender a linguagem dela. É uma mistura de Japonês, Francês, Austríaco e Esperanto. Depois de andar por mais algumas quadras e após muita insistência da Louise em me olhar e gesticular com seus bracinhos e mãozinhas creio que consegui entender o que minha filha estava querendo me dizer. Andar com um carrinho de criança pelas calçadas do Brooklin é um verdadeiro martírio: buracos, desníveis, degraus, lixo e outros senões, impedem que você consiga rodar com naturalidade. Perguntei à Louise se isso era propositado para combinar com as ruas da cidade, mas até hoje estou tentando traduzir o que ela me respondeu. Talvez a sua resposta nem possa ser reproduzida num jornal... Decidi empurrar o carrinho de minha filha na própria rua. Talvez fosse mais fácil e quem sabe até eu não perderia o resto de minha motivação por causa “dessa bobagem”. Ao dobrar a esquina da Ribeiro do Vale com a Flórida, quase fomos atropelados por um automóvel dirigido por uma respeitável senhora que nos brindou com algumas frases não tão respeitáveis... Foi a gota d’água. Para quem estava disposto a ser feliz por alguns instantes era o tempo de chegar. Antes que a alegria se transformasse em ódio, preferi retornar para casa e deixar o meu tesouro no seu lugar de costume, abotoar os botões da camisa e apertar o nó da gravata. Difícil vai ser, um dia, explicar a minha filha porque não entendi logo o que queria me dizer.