Crônicas

Êta, Minas Gerais

Há alguns dias atrás fiz uma viagem de retorno ao passado. Voltei para uma cidadezinha, nas montanhas de Minas Gerais, que abriga não mais do que poucos milhares de habitantes. Um nada frente aos mais de 5 bilhões que permeiam o nosso planeta. Conheci essa maravilha há muito tempo e, meu convívio com ela me brindou a possibilidade de conhecer o “Seu Jacir”, mineiro velho, alegre e esperto como ele só. Ninguém até hoje sabe de que família é o Seu Jacir ou nem mesmo de onde veio ou onde mora. É o grande mistério do pedaço, que, aliás diga-se de passagem, em matéria de mistérios é o lugar mais fértil das Minas Gerais. Mineiro em geral é bom de papo. É gentil, simpático e, contador de estórias. Mas o Seu Jacir dá de dez a zero na minerada. No primeiro dia da minha estada, fiz questão de revê-lo e desci até o Pingão, na avenida. Para os não-iniciados em questões do interior, avenida é aquela rua que se convencionou utilizar como passarela para praticar o “footing”; mostrar-se, azarar (paquerar), informar-se e outras utilidades. Ali as moças passam de braços dados com as amigas, pra cima e pra baixo, sob os olhares interessados dos rapazes. No que também são imitadas por alguns deles. Pingão é o boteco mais freqüentado da avenida. Afinal, cidade mineira sem pinga não tem futuro. Pingão, então, é sinal de opulência pela cultura local. Lá estava o seu Jacir, como há vinte anos atrás, sentado na velha cadeira, ao lado uma garrafa de mais pura cachaça amarelinha, testemunha ocular da história do Pingão. Ao me ver, exclamou radiante: Uai! Não é que o moço voltou pra nóis! disse, calmo e com aquele olhar meio irônico e meio sorrateiro com ares de Mazzaropi que todo bom mineiro velho, que se preza, tem de ter. Foi bom sor chegá, sô! Toma uma que essa é da boa. Quem me deu foi o Carlinho, fio da Estela, que mora na fazenda dos Canhoto. Mais a noitinha tem um baile que não é por falar não, mais tem dama que vem inté das fazenda! E o sinhô tá convidado a ir lá com o mineiro véio...tá sabendo? Do jeito que tá, tá bom. Nem troca. Tá bunito como o diabo com essas roupa do asfarto! E a cidade, como vai? Vi falar que agora a moçaiada é assaltada na rua mesmo, com o sol a pique. É verdade, sô? Ouvi falar também que o pessoar lá na cidade compra carro novo todo ano, mas que despois fica dentro dele um terço do dia porque não consegue andar nas rua com congestão. É memo? Também tão dizeno que as casas toda têm grade nas janela, nas porta e no jardim. Tem cachorro bravo, alarme, guarda e sei lá mais o quê. No duro? Né mintira da braba não? Tive que confessar: É verdade Seu Jacir. É verdade! Nô!!! Intonce, o moço me fale o seguinte: porque o povo não muda pra cá? Aqui tem disso não! Tudo mundo é amigo. Cachaça da boa nunca falta, dama pra dançá também não, não precisa de tomove e nem de grade...... Aos 82 anos de idade parece que o Seu Jacir, além de bom de papo, bom de copo, bom de valsa, é mesmo bom da cabeça! E viva Minas Gerais!