Crônicas

A educação e a modernidade

Este é um tema talvez polêmico demais para se abordar numa crônica despretensiosa como esta. O fato é que, embora eu reconheça as fronteiras desta escrita, a vontade de gritar não tem limites e, portanto, aí vai. Com certeza a maioria dos leitores já deve ter passado por situações em que lamentou, com profundo pesar, a falta de educação das pessoas e acabou, como a maioria acaba, engolindo a sua reclamação. Diga-se de passagem que a grande maioria das pessoas não reclama. E isso também é um grande erro. Erra quem mal atende e erra quem não reclama. Aquele que deixa passar uma falta de educação, uma descortesia ou um mal atendimento, está colaborando para a continuidade do “status quo”, e, portanto, é tão culpado quanto quem errou. Nos países da Europa ou Estados Unidos o pessoal não deixa barato. Ninguém deixa passar batido o que eles consideram, dentro dos seus padrões, uma falta de educação. Botam a boca no trombone, discutem “a la Italiana” e chegam até a processar os faltosos. Tudo em nome da manutenção e do desenvolvimento de uma cultura ética que identifica a sua sociedade. Nós estamos ainda longe disso. Aqueles que têm por dever de ofício nos tratar bem, não o fazem. Os jovens, exceções a poucos, não respeitam os mais velhos, as damas não são mais reconhecidas como tal pelos cavalheiros (?) e cabelo branco é sinal de decadência e não de sabedoria. Você vai a uma loja e é mal atendido; a balconista lhe recebe, de cara, com um “fala!” ou então encara você de queixo levantado, sem abrir a boca e querendo dizer: tá esperando o que para pedir? Isso sem contar as vezes em que você pergunta alguma coisa e nem se dá ao trabalho de responder, fazendo de conta que não ouviu. Vai a um banco e os funcionários lhe tratam como se estivessem fazendo um favor em atendê-lo, não conseguindo entender que, naquele momento, o cliente é você, e, por isso, têm a obrigação de se desdobrar e tratá-lo com todo respeito e educação. O que infelizmente, tiradas as poucas exceções, é exatamente o contrário. Se você tiver a infelicidade de precisar encostar num balcão e pedir informações, então, pode esquecer. Arme-se de paciência; peça perdão por tudo e favor por nada e reze para que aquele que está do outro lado do balcão se digne a olhar para você. O troféu vai para os que mentem, distorcem ou alteram o significado das coisas com tal de cumprir a missão que lhes é dada: faturar a qualquer custo. Percebi isso, alguns dias atrás, até no consultório de um destacado profissional: no ato de conquistar o cliente o discurso e a postura tinham uma cara; uma vez isso conseguido e recebido o pagamento inicial, o tratamento foi outro. Nem a graça do seu cumprimento você conseguia amealhar. E nem se deu ao trabalho de disfarçar. Uma vergonha! Cumprimentos cordiais, cortesias, galanteios, elogios, referências positivas, mesuras e outros quetais, foram-se com o tempo. A modernidade não contempla mais esses requintes intrínsecos e tão necessários ao bom relacionamento entre as pessoas. Dizem que o tempo é curto e que o que interessa hoje é a objetividade do contato. Mas quem disse isso? Gostaria de descobrir! Não há uma pessoa, nem jovem nem velha que não esteja se queixando desse mal. Os jovens talvez menos, porque não vivenciaram, como nós, mais velhos, os bons tempos onde a boa educação e a cortesia eram valores indispensáveis. Eu diria até que muitos dos jovens de hoje devem estar compartilhando esse comportamento mas muito a contragosto: pode ser jovem, mas não é burro nem insensível. Quem é hoje, o grande responsável pela manutenção dos padrões estéticos, éticos e morais das pessoas? A sociedade? Qual? Essa que ai está? Não me digam que é a família porque continuo perguntando: qual família? Esse núcleo desagregado que a modernidade assim intitula? Seria a Igreja? na sua triste decadência? Ou o Estado, na sua falência total de valores? Talvez a escola, trocando o papel de entidade educadora pelo de entidade comercial? Ou são os mestres, educadores e formadores de opinião, jogados à margem do caminho pela própria sociedade que lhe dá menos valor do que a um jogador de futebol? O fato é que estamos perdendo os nossos valores mais preciosos e descuidando do lugar onde passaremos o resto de nossas vidas: o nosso futuro. Esse futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos. Vamos tornar os nossos sonhos novamente realidade, ensinando-nos uns aos outros a sermos mais educados?