Crônicas

RETORNO À VIDA

A vida, às vezes, nos leva por caminhos não previstos e nem sempre fáceis de trilhar. São momentos em que, por força das circunstâncias, somos obrigados a nos recolher dentro de nós mesmos fazendo um balanço dos acontecimentos, lambendo as feridas abertas e aguardando a tormenta passar para voltar à tona. A tônica nos mostra que o nosso sistema imunológico, nessas ocasiões, torna-se tão frágil que, por mais que a gente tente se defender, tudo -e todos- está contra nós. As nossas defesas tornam-se impotentes à tanta adversidade e permitem que tudo nos atinja. Nessas horas é que acreditamos no velho ditado popular: “desgraça pouca é bobagem” e torcemos para que venha logo tudo de uma vez e pronto. É exatamente esses momentos de fragilidade que algumas pessoas há muito tempo estavam esperando para atingir você de alguma forma. A analogia é a de um animal ferido, acuado e indefeso, numa selva hostil, assistindo a mil outros animais à espreita -na escuridão da noite- apenas no aguardo da primeira chance para dar o bote mortal. E, assim caminha a humanidade! Sem querer saber as suas razões ou suas necessidades. Julgando apenas pelo que vê e triturando histórias de vidas pelo que não vê. É a lei da selva em pleno asfalto. Aliás é a plenitude dessa contradição que satisfaz a certas pessoas: quanto mais asfalto mais selva; quanto mais frágil o nosso semelhante mais vamos bater, como forma de sobreviver às nossas próprias incompetências. É o construir utilizando como alavanca a fragilidade dos outros e não as nossas próprias forças. Atitudes como essas são realmente a prova triste do quanto o homem ainda continua pobre no sentido cultural; o quanto continua preso às coisas materiais e aos interesses que possam lhe garantir ganância ou poder. Outra grande contradição é que gente dessa espécie, aproveitadora da fragilidade dos outros, para aparecer, se diz devota e seguidora fiel de Sua fé. Isso quando não chega aos limites de se acreditar portadora de Sua palavra e, tal qual juiz inexorável, emite a sua sentença para, em nome Dele, acabar com você mais depressa. Há, entre nós, gente que não resiste à tanta adversidade e acaba por ficar acuado, ferido e indefeso pelo resto de sua vida. São os covardes; aqueles que têm medo de enfrentar a realidade; medo de sofrer alguns tropeços e envolvidos na imensa hipocrisia do receio de não mostrar suas feridas à sociedade, acabam sucumbindo na frieza das suas normas. Há, também, os que têm a coragem de lamber as suas próprias feridas à luz do dia e, no momento certo, renascer das próprias cinzas, num vôo de retorno à vida, sem subterfúgios e sem mentiras. Sem medo de mostrar a força interior que lhes permite mover até montanhas, dando aos animais que o espreitam a mesma importância que eles têm: nenhuma. É difícil para quem sofreu grandes revezes da vida retornar à ela sem sentir alguns efeitos colaterais, é verdade. Contudo, com coragem, fé e força de vontade, a história continuará a ser escrita em linhas retas.