Crônicas

Mi Buenos Ayres querido

Quinta feira à noite participei de uma comemoração na residência de um casal amigo e, papo vai papo vem, um dos presentes resolveu mostrar todo o seu (des)conhecimento sobre a Argentina e os hábitos do seu povo. Eu, no meu canto, quietinho, feito mineiro na espreita, bebericava o segundo Chivas 12 anos, deliciando-me com o seu paladar e refletindo sobre o que estava ouvindo. Em certo momento, o nosso amigo “especialista” em portenhos, despejou tamanhas barbaridades que não resisti e resolvi intervir na conversa, para endireitar o rumo dos acontecimentos. Até aquele momento, o argentino tinha ganho, pela boca do orador, o rótulo de indivíduo prepotente, mal educado, cheio-de-si e “otras cositas mas”. Era hora de intervir. De “sacar el saco” (desculpem, não é isso não. Traduzindo: tirar o paletó...) e mostrar o outro lado da moeda. Nesta altura do jogo o dono da casa que me conhecia superficialmente, olhou para mim com olhar circunspecto e deve ter-se perguntado: mas o que é que o Jean Pierre tem a ver com a Argentina, se ele nasceu em Mônaco e vive há mais de 40 anos no Brasil? Por que tomou as dores dos gringos? Eu, pouco me lixando dos olhares estranhos do meu anfitrião, com toda educação, comecei lançando ao grupo uma série de perguntas: algum de vocês já teve a oportunidade de tomar mate amargo numa tarde de verão, sentado na calçada ou na varanda de uma fazenda, papeando com argentinos? Algum de vocês já cavalgou noites adentro com um grupo de criollos, dormindo encostado ao pingo, ouvindo a lenha crepitar ao som de uma guitarra gaúcha? Quem entre vocês teve a oportunidade de estudar os versos de Martin Fierro? Entendem a sensibilidade e a doce filosofia dos cantos de Gardel, Lepera ou Larralde? Ninguém respondeu. Passados alguns momentos de surpresa, confessei aos meus amigos que eu tinha passado por tudo isso, pois eu passei a minha juventude no interior de La Pampa. Lugar de Argentinos de sangue quente. Lugar onde os gaúchos, naquela época, ainda cruzavam léguas e mais léguas a cavalo para entregar os rebanhos. Eu, com meus 15 anos, fiquei extremamente ungido do símbolo forte que é o gaúcho argentino e, hoje, não posso sequer admitir que alguém ouse falar desatinadamente de uma figura tão lendária e tão bela como foi o homem dos pampas. Cavalguei com eles, vi-os lutar até a morte com seus punhais de prata mortal, vi-os dançar como ninguém, vi-os loucos de bravura e de ternura pelas coisas da terra e pelas mulheres. Churrasquiei e matiei com eles, ouvindo seus conselhos boquiaberto como quem alcança a verdade. Vi-os como eles realmente eram: argentinos de verdade. Tanto nos pampas como em plena calle Corrientes. Aqueles gaúchos, de bombachas, sombrero e cheios de orgulho pelos pingos que montavam, foram as sementes dos argentinos de hoje, bem vestidos, cultos e orgulhosos do seu capital maior que é o enorme sentimento de amor que eles tem pelas suas coisas: pela bandeira, pelo hino, pela terra, etc. Se isso é ser bairrista, pois eles são sim! Se ter orgulho de ser o que se é e de se ter o que se tem, mesmo que seja pouco, é sinônimo de argentinidade, eu também quero ser argentino. No mais, o papo amigo, as portas abertas, o sorriso franco e o jeito carinhoso de ser dos nossos irmãos (e principalmente da mulher argentina!!), pagam qualquer pecado que porventura venha a existir. Mi viejo Buenos Aires, te lloro y te añoro tanto!