Crônicas

O maior salário do mundo

Quero começar o ano homenageando àqueles que durante 95, direta ou indiretamente, acompanharam esta crônica semanal e se fizeram presentes, me oferecendo sugestões, críticas e agradecimentos pelo meu trabalho. Foram dezenas de leitores que me telefonaram, escreveram e até mesmo me paravam na rua para comentar ou discutir alguns pontos de vista que defendi ou ataquei. O processo de escrever é uno como experiência de vida. Nada se equipara a ele, em termos de retorno. Pode ser desgastante, difícil e as vezes polêmico quanto ao que se pensa e registra publicamente, mas, uma verdade é incontestável: é muito gratificante sob o ponto de vista de se conhecer mais profundamente o comportamento e o pensamento dos outros. Quando resolvi escrever, há alguns anos atrás, não fazia a menor idéia do que me esperava. Tinha em mente apenas comunicar-me com as pessoas e, principalmente, registrar realidades que, me parecia, deveriam ser ditas. Aos poucos essa prática foi me parecendo muito crítica e notando que me aproximara perigosamente de uma posição de esquerdismo sistemático, tive receio de tornar-me monótono e -porque não - um chato. Então, decidi ficar mais “soft”, procurando retratar não só o cinza mas também o resto das cores. Não me arrependo disso. Não que eu tenha deixado de ser crítico. Apenas achei que não tinha o direito de utilizar o espaço que tenho somente para “meter o pau” nas coisas do dia-a-dia. Entendi que, de repente, as coisas bonitas ou agradáveis também fazem parte da vida e, portanto, devem ser exaltadas. Devem ser ditas. Devem ser mostradas. Dizendo isso já estou utilizando o meu sentido de crítica: nas entrelinhas estou dizendo que há escritores que se valem da pena para retratar apenas o mondo cane da vida, explorando sórdida e unicamente o que dá manchete. Se você já mudou de canal, por sentir-se deprimido com o que estava vendo ou leu certos jornais que só falta pingar sangue entre seus parágrafos, sabe o que que estou dizendo. A vida já não é suficientemente difícil para estarmos incutindo na cabeça dos outros apenas desgraças, notícias ruins, mortes, estupros, etc. etc.? Não nego a importância das notícias e da informação. Condeno, todavia, o uso do poder de informar, utilizando a unilateralidade da forma, em benefício comercial. Mas isso é “papo pra mais de metro”, como dizia um carioca amigo meu. Voltemos ao tema de hoje. Pouco antes do Natal, minha mulher encontrou, no caixa do Peralta uma senhora que, reconhecendo o sobrenome no cheque, pôs-se a ressaltar o quanto gostava destas mal traçadas linhas. Foi capaz de citar diversas matérias (com seus títulos) e comentar detalhes de cada uma... Pode existir recompensa maior do que isso, para quem, como eu, assina o que pensa, publicamente, sem nenhuma pretensão maior do que provocar reflexões sobre coisas do dia-a-dia? Tem não. Essa é a paga maior. E por isso, dedico o meu cantinho de hoje agradecendo àquela senhora pelo carinho e, utilizando-a como símbolo, envio através dela a minha gratidão a todos os que me lêem.