Crônicas

A lei da fome

O mundo está passando por uma fase extremamente delicada de sua existência. Ao mesmo tempo em que vemos o alarmante acréscimo da população do planeta subir o degrau dos 5 bilhões de pessoas (compare aos 500 mil de 3 mil anos atrás e reflita...), estamos assistindo, impotentes, a dois fenômenos antagônicos que pela sua contemporaneidade estão corroendo os alicerces do ser humano. O primeiro deles é a avalanche incrível de produtos que em termos de quantidade e qualidade estão inundando os mercados mundiais. São milhares de “coisas” que até poucos anos atrás nem imaginávamos que pudessem existir; quanto mais, que estivessem ao nosso alcance por poucos reais na loja da esquina. A lei é conseqüência da vida. Não o contrário. Parece que tudo teve seu começo com a indústria americana que nos deu água na boca com seus produtos eletro-eletrônicos e automáticos, por não falar nos inúmeros artigos de necessidade discutível (sem críticas. Afinal estamos falando de um país considerado o templo do consumismo...). Atualmente é o Japão, a China, a Korea e até a África que nos presenteiam com centenas de produtos de inutilidades domésticas, reforçando o estímulo de consumir. Quem é que não sente aquela vontade irreprimível de comprar diante de uma loja de importados? Se por um lado esse desejo é a mola mestra que impulsiona o desenvolvimento da produção e das vendas, proporcionando a continuidade do progresso, por outro é também o responsável - para dizer o menos - pelo estresse exagerado que estamos carregando nas costas ao sermos pressionados a consumir. Quem nos pressiona a comprar é o nosso ego, são os filhos, é o “status”, é o complexo de inferioridade, a vaidade, etc. Podem mudar as razões do impulso da compra mas, infelizmente, o que não muda é o paciente: nós mesmos. O segundo grande problema é que se por um lado estamos vendo, do lado de fora das vitrines, atrações cada vez mais interessantes, por outro ficamos cada vez mais incapacitados para entrar na loja e satisfazer nossos impulsos de comprar. Por que? Pela queda dos salários e do poder aquisitivo; pela falta de dinheiro; pela queda da qualidade de vida e, o que é pior, pela falta de emprego. E olha que não estamos sozinhos neste dilema: os norte-americanos estão amargando o mesmo problema, os salários de lá decresceram 20% nos últimos 10 anos; o número de desempregados nos EUA está alarmando as autoridades ao passar dos dois dígitos; as mulheres casadas já não procuram trabalho somente para satisfazer o seu ego ou preencher as suas horas vagas: são obrigadas a dar duro para completar o orçamento familiar já insuficiente... Enquanto isso, nós brasileiros, vamos nos acostumando a ceder as calçadas para as barraquinhas de “autônomos”; pobres desempregados que tentam, a todo vapor, ganhar o seu míseros reais. Aí, de repente, aparece um sindicato, propõe uma nova forma de contrato de trabalho (rebaixando a carga abusiva de encargos) que pode ser a solução do desemprego que leva a nossa sociedade para o buraco e a gente assiste a certas autoridades criticando o modelo até mais não poder, em nome da lei. Como se a Lei fosse mais importante que o sustento da família; como se a Lei desse solução ao problema da fome. Claro que a lei deve ser respeitada, mas acima disso está o respeito à vida, à dignidade e à sobrevivência. Ou não?