Crônicas

MANHÃ DE DOMINGO

O primeiro pensamento que lhe veio à cabeça, ao acordar, era de que aquele era um domingo como outro qualquer. No entanto, ao levantar-se da cama, o barulho da chuva o fez aproximar-se da velha janela descolorida e, ao abrir a cortina e lançar um olhar à sua frente, sentiu uma sensação diferente. Não sabia bem do que se tratava. Mas, tinha a certeza de que naquele momento o mundo havia parado e, como que hipnotizado pelo que via, começou a sentir a cabeça leve, o corpo quase que inexistente e seus pensamentos voarem para muito alto e longe daquele quarto em penumbra. Ela estava à sua frente para amamentá-lo com o leite do seu amor... Eram seis horas de uma manhã chuvosa e a praça, em frente à sua janela, estava deserta como sua alma. Uma sensação de plenitude o atingiu fazendo com que nada de tudo aquilo que o atormentava, no dia anterior, fosse lembrando ou tivesse valor. Na vidraça, as gotas da chuva insistiam em cair mansas e escorregadias, uma atrás da outra como a sugerir o movimento mágico da vida e da morte. Um sentimento de tristeza invadiu-lhe as entranhas e foi tomando conta do seu todo sem que nada pudesse fazer para reprimir essa sensação. Por um momento chegou a pensar que a magia de tudo aquilo se devia à chuva ou ao tom cinza com que aquele domingo de vestiu. Logo, porém, teve a certeza de que não era nada disso. De repente, surgiu em seus pensamentos uma figura de mulher. Ainda que meio embaçados pela sonolência, seus pensamentos demoraram alguns minutos para desfazer a neblina que os cercava. Após algum tempo nessa inércia percebeu que era dela que estava se lembrando. Por que não conseguia tirá-la da cabeça mesmo depois de tudo o que havia acontecido entre eles? Não sabia bem as razões e por isso a raiva , impotência e solidão que tomavam conta do seu interior. Pior era a certeza de que continuava a amá-la como nunca e, como sempre, não sabia o que fazer . Seu olhar, vazio, pediu desesperadamente por socorro. Ninguém na praça para ajudá-lo. Nem uma alma. Olhou para cima e o que viu, através da copa da árvore desfolhada, foi um céu sem cor, triste e vazio como ele, a lhe negar qualquer possibilidade de esperança. Foi aí que o desespero o fez deslizar num precipício sem fim. Sobressalto, reencontrou-se segurando seus cabelos com as duas mãos e, ainda engrunhido pela noite mal dormida, soltou um brado profundo e animalesco que esvaziou todos os demônios que o possuíam. Era a última tentativa de esquecê-la. Mas não conseguiu. A chuva, de repente, fez-se torrencial como um sinal apocalíptico inundado de pavor todos os poros de sua pele. Seria o fim? Impossível: afinal, ele a amava muito e a queria. Qual a importância do resto? No despertar daquela eternidade reflexiva olhou à sua volta, tentou pousar novamente sobre a realidade que o cercava e, ao fazê-lo, encontrou-se - já despido de todas as defesas que o cercavam - caminhando ao seu encontro sob uma chuva cada vez mais fina. De repente as nuvens foram deslizando á sua frente e fez-se o sol: ela estava ali, eclipsante, à sua frente, para aplacar a sua fome com o leite do seu amor eterno. A Segunda foi um dia diferente.