Crônicas

A NOITE DE SÃO PAULO II

A NOITE DE SÃO PAULO II Desce a cortina. A cidade volta a vestir o seu smoking mas as estrelas que normalmente salpicam as ruas com raios de prata dão lugar aos trovões, à garoa úmida, ao frio penetrante e à chuva fina e insistente. Deveria ser uma noite feliz, como todas aquelas que sucedem os dias cansativos e cheios de expectativas. No entanto, esta noite é diferente. Pobre noite paulista. Sem estrelas e sem luar! É a noite que envolve os carentes de calor físico e humano; é a noite dos que se encontram para disputar a distribuição caridosa de um prato de sopa; é a noite fria dos que se albergam sob a marquise de um prédio e tem como único amparo uma caixa de papelão dobrada em quatro; é a noite dos que caminham ao encontro das drogas em busca de um pseudo refúgio para os seus infortúnios; é a escuridão certa dos que jazem no asfalto úmido sob o olhar incerto dos que passam; é a noite das “meninas” à espera dos incautos ou necessitados para mais uma rodada de ganha-pão; é a noite dos miseráveis com crianças a tiracolo pedindo esmola pela madrugada adentro. É a noite de São Paulo. Sem mais e sem menos. É a noite dos sem teto, dos desabrigados e daqueles que mais cedo ou mais tarde serão os sem tudo, castigados pela violência das águas do Tietê. É a noite de São Paulo que troca o seu smoking e se veste de tristeza e de tragédias, como que criando um cruel contraponto natural para obrigar-nos a assistir, num ato inglório, o outro lado da vida. Inglório, porque é nulo de efeito e apesar de todo o esforço, não consegue sensibilizar-nos como deveria: essa mesma noite aliada ao dia que a precede nos faz extremamente egoístas. Somos, simplesmente, produto de uma megalópole. Que se há de fazer? É fácil fazer de conta que as noites são todas estreladas. O difícil é encarar a realidade e, pior ainda, participar da solução desse movimento dialético entre a vida e a morte; entre o bem e o mal; entre o ter e o não ter; entre o amor e o ódio; entre o carinho e a indiferença. Diferenças econômicas, sociais e comportamentais sempre vão existir. A idéia não é fazer disso um movimento épico na busca do sexo dos anjos. A idéia é bater nessa tecla como tônica necessária para sensibilizar os mais gélidos e indiferentes que nasceram com essa característica congênita e nada fazem para mudar. É preciso refletir muito sobre o nosso papel na sociedade pois também somos, direta e indiretamente, responsáveis por tudo de bom que a noite nos dá, mas também com tudo aquilo que ela nos tira. No rastro de cada madrugada, ao nascer do sol, a própria noite como que envergonhada com tudo aquilo que alberga, vai lentamente apagando o rastro de uma miséria que a luz da manhã não aceita e teima ilusoriamente em transformar. A manhã fornece o retorno à vida -tão necessário- para aqueles que continuam a sua caminhada de lutas, em busca daquilo que os miseráveis noctâmbulos nunca vão poder alcançar. Pobre noite Paulista! Sem estrelas e sem luar. O que salva é a esperança do teu povo, tão forte quanto eles próprios!